A projeção de um reajuste de apenas 0,37% no piso salarial nacional do magistério em 2026 reacendeu o debate sobre a política de valorização dos professores da educação básica pública. A estimativa, divulgada a partir das últimas atualizações do Fundeb, abriu o ano com expectativa, mas também com forte apreensão entre docentes, sindicatos e entidades representativas da categoria em todo o país.
Embora o tema ainda esteja em discussão e não haja consenso definitivo sobre os critérios que serão adotados, a previsão já provocou críticas públicas e cobranças diretas ao Ministério da Educação (MEC) por mudanças no modelo de cálculo do piso salarial.
Como funciona o piso salarial do magistério
O piso salarial nacional do magistério foi instituído pela Lei nº 11.738, de 16 de julho de 2008, e estabelece o valor mínimo a ser pago a professores em início de carreira na educação básica pública. A regra vale para profissionais com formação em magistério em nível médio ou equivalente, com jornada de 40 horas semanais, que atuam na educação infantil, no ensino fundamental e no ensino médio.
A legislação determina que o piso seja reajustado anualmente, com base em um indicador diretamente ligado ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), principal mecanismo de financiamento da educação básica no Brasil.
Atualmente, o reajuste considera a variação do Valor Aluno Ano do Fundeb (VAAF), indicador que expressa o investimento mínimo anual por estudante e orienta a distribuição dos recursos entre estados e municípios.
Projeções para 2026 e impacto no reajuste
Para 2026, as projeções oficiais apontam crescimento do Fundeb. De acordo com estimativas publicadas na Portaria Interministerial nº 14/2025, o Fundo deverá movimentar R$ 370,3 bilhões, o que representa um aumento de 8,54% em relação a 2025.
Desse total, R$ 301,1 bilhões virão das contribuições de estados e municípios, enquanto a complementação da União deve alcançar R$ 69,2 bilhões, componente fundamental para o cálculo do VAAF.
Apesar do aumento global de recursos, a última atualização do VAAF referente a 2025, publicada em edição extra do Diário Oficial da União em 30 de dezembro (DOU nº 248-C), indicou que o reajuste do piso do magistério em 2026 seria de apenas 0,37%. Na prática, o piso passaria de R$ 4.867,77 para R$ 4.885,78, conforme prevê o artigo 5º da Lei nº 11.738.
Histórico recente preocupa professores
O percentual projetado reforça um histórico recente de correções consideradas insuficientes pela categoria. Pelo mesmo critério de cálculo, o piso não teve reajuste em 2021 e, em 2024, registrou aumento de 3,62%, índice abaixo da inflação acumulada no período.
Diante desse cenário, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) avalia que a política atual não garante ganho real aos profissionais do magistério e mantém o risco de novas perdas salariais nos próximos anos.
Segundo a entidade, a perspectiva de reajustes nulos ou abaixo da inflação pode se estender para além de 2026. A CNTE aponta como fator agravante a Emenda Constitucional nº 135, que estabelece que, a partir de 2026, os fundos estaduais do Fundeb deverão destinar no mínimo 4% de seus recursos para financiar matrículas em tempo integral, o que tende a reduzir ainda mais a margem para valorização salarial.
CNTE cobra ação do MEC e retomada do diálogo
Diante da projeção de reajuste de 0,37%, a CNTE intensificou a pressão sobre o governo federal. A entidade informou que já solicitou audiência com o ministro da Educação, Camilo Santana, para discutir alternativas ao atual modelo de correção do piso, a retomada do Fórum do Piso e o acompanhamento de projetos que tramitam no Senado.
O Fórum do Piso foi criado justamente para discutir alternativas ao critério vigente, mas está paralisado desde maio de 2025, após a saída do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) das discussões. Segundo a confederação, reuniões chegaram a ser agendadas, mas foram canceladas sem justificativa, o que interrompeu o diálogo institucional.
Desde então, de acordo com a CNTE, as entidades passaram a acompanhar o tema apenas por meio de declarações públicas de autoridades, sem participação direta nas decisões que impactam a carreira docente.
MEC sinaliza revisão da fórmula
Por sua vez, o Ministério da Educação tem afirmado que mantém o diálogo aberto com as entidades representativas e que trabalha para revisar a fórmula de reajuste do piso do magistério, com o objetivo de assegurar ganho real aos professores.
A CNTE, no entanto, avalia que o percentual previsto poderia ter sido evitado caso as negociações no Fórum do Piso tivessem avançado. A entidade também manifestou preocupação com o Projeto de Lei nº 2.531/2021, aprovado na Câmara, que trata do piso dos funcionários da educação, e buscou interlocução com a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República.
Embora não descarte a edição de uma medida provisória para recompor perdas inflacionárias, a confederação reforça que qualquer mudança precisa ser construída com a participação efetiva dos trabalhadores da educação.
Enquanto o debate segue em aberto, professores de todo o país acompanham com atenção as próximas decisões do governo, cientes de que o reajuste do piso do magistério em 2026 será decisivo para o futuro da valorização da carreira docente no Brasil.

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