O Brasil prepara uma das maiores iniciativas recentes voltadas à fixação de pesquisadores altamente qualificados no país. Em parceria entre CAPES/MEC, CNPq e as Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (FAPs), o novo Programa de Apoio à Fixação de Doutores no Brasil (Profix-CB) ofertará 1.000 bolsas no valor de R$ 13 mil, com duração de quatro anos, para doutores de todas as áreas do conhecimento.
A medida representa um reforço decisivo para o Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCTI) e busca enfrentar um problema histórico: a dificuldade de reter pesquisadores em território nacional, especialmente em regiões que sofrem com desigualdades estruturais na produção científica.
Investimento de R$ 624 milhões para impulsionar a ciência brasileira
O Profix-CB contará com financiamento de aproximadamente R$ 624 milhões, provenientes do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). O programa integra o eixo Conhecimento Brasil, uma das frentes estratégicas do FNDCT, e segue o mesmo patamar remuneratório das bolsas ofertadas na chamada de repatriação de pesquisadores lançada em 2024.
De acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que preside o Conselho Diretor do FNDCT, o aporte permitirá que os bolsistas tenham condições de trabalho mais estáveis e previsíveis ao longo dos 48 meses de execução das atividades.
Esses recursos representam um passo importante na recomposição da capacidade científica nacional, que sofreu impactos significativos na última década devido à instabilidade orçamentária, à redução de bolsas, à falta de concursos públicos e ao chamado “apagão de talentos”.
Objetivo central: fixar doutores e reduzir desigualdades regionais
Um dos focos principais do programa é reduzir as assimetrias regionais que marcam a distribuição da capacidade científica no Brasil. Regiões como Norte e Nordeste concentram a menor quantidade de doutores, menor número de grupos de pesquisa e também menor volume de financiamento.
Nesse contexto, o Profix-CB estabelece como prioridade a Amazônia Legal, área estratégica para a soberania nacional e para a ciência global, especialmente nos campos da biodiversidade, clima, manejo sustentável e tecnologias sociais.
Entre os principais objetivos do programa estão:
- Fixar e apoiar pesquisadores doutores em universidades, ICTs e empresas brasileiras.
- Combater desigualdades regionais no SNCTI.
- Criar condições favoráveis para que doutores desenvolvam pesquisas de impacto no país.
- Contribuir para a retenção de talentos científicos e para a expansão da pós-graduação.
Segundo a presidente da CAPES, Denise Pires de Carvalho, a iniciativa está alinhada à política do governo federal de valorizar a ciência nacional, reduzir desigualdades e fortalecer áreas estratégicas. Ela destaca ainda que o programa contribui diretamente para melhorar a qualidade de vida da população, promovendo sustentabilidade, diversidade e inclusão.
Declarações das instituições parceiras reforçam importância da iniciativa
A ação foi saudada pelas lideranças das três instituições envolvidas na formulação do Profix-CB.
Para Denise Pires de Carvalho, presidente da CAPES, o programa “vai ao encontro da política do atual governo de enfrentar as assimetrias entre e dentro das regiões e valorizar a ciência produzida no país, principalmente na Amazônia”. Ela ressalta que as bolsas proporcionarão melhores condições para que pesquisadores possam permanecer no Brasil e contribuir para a produção científica nacional.
O presidente do CNPq, Olival Freire Júnior, afirma que se trata “da maior ação realizada nos últimos anos voltada à fixação de pesquisadores no país”, destacando que a política é fruto da luta da comunidade científica por mais oportunidades de inserção de doutores nas universidades e empresas.
Já o presidente do Confap, Márcio de Araújo Pereira, enfatiza o papel das FAPs na capilaridade da iniciativa: “Essa parceria demonstra que a capilaridade das FAPs possibilita que a ciência esteja em todos os lugares, para todas as pessoas, de forma mais célere, atingindo objetivos e resultados de que o Brasil precisa.”
Seleção será descentralizada: FAPs conduzirão editais estaduais
As Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa terão papel central na implementação do programa. Elas deverão manifestar interesse em participar do Profix-CB até fevereiro de 2026, por meio de um chamamento público que será lançado ainda em 2025.
A expectativa é que, a partir de março de 2026, as FAPs comecem a divulgar suas próprias chamadas estaduais para seleção dos pesquisadores que receberão as bolsas Conhecimento Brasil.
Esse formato descentralizado tem duas vantagens importantes:
- Permite maior aderência às demandas regionais de pesquisa.
- Acelera o processo de contratação dos bolsistas, dada a proximidade das FAPs com as instituições locais.
Além das bolsas individuais, as FAPs também serão responsáveis por conceder auxílios à pesquisa, tanto para custeio quanto para capital, como contrapartida acordada com as agências federais. Esses recursos complementares permitirão que os bolsistas desenvolvam projetos robustos, com aquisição de equipamentos, materiais e contratação de serviços.
Integração com a pós-graduação: CAPES oferecerá bolsas adicionais
Outra novidade do programa é a possibilidade de o bolsista do Profix-CB receber, de forma adicional, bolsas de mestrado ou doutorado da CAPES, desde que ele se credencie como orientador em programas de pós-graduação das instituições executoras.
Essa medida fortalece a formação de novos quadros altamente qualificados no país e amplia a capacidade de orientação nas universidades, o que é essencial para o crescimento da pós-graduação brasileira.
Articulação institucional e fortalecimento da pesquisa nacional
A ação foi formalizada por meio de uma carta de intenções assinada por CNPq, CAPES e Confap no dia 4 de dezembro de 2025, durante o 70º Fórum Nacional Consecti e Confap, realizado em Goiânia. A previsão é que o chamamento público para adesão das FAPs seja divulgado em breve na página do CNPq.
O alinhamento entre as três instituições é considerado estratégico para reverter o cenário de perda de pesquisadores para o exterior e para consolidar uma política de longo prazo de valorização da carreira científica no país.
Segundo especialistas, programas de fixação são fundamentais para manter a massa crítica de pesquisadores e para estimular inovação em setores-chave da economia, como biotecnologia, energia, tecnologias digitais, meio ambiente, produção sustentável e saúde.
Perspectivas para 2026: retomada da ciência como prioridade nacional
A criação do Profix-CB evidencia uma tendência de fortalecimento das políticas de ciência e tecnologia desde 2023. Com a recomposição do orçamento do FNDCT, a ampliação das bolsas de pós-graduação, a reativação de programas como o Ciência sem Fronteiras (na modalidade de repatriação) e o incentivo à pesquisa aplicada, o país dá sinais de reconstrução de sua base científica.
Com as 1.000 bolsas de R$ 13 mil, o governo busca não apenas valorizar os doutores, mas também garantir melhores condições para que permaneçam no Brasil produzindo conhecimento, tecnologia e soluções que atendam às necessidades da sociedade.
O Profix-CB representa, portanto, um marco importante na política científica nacional e reforça a relevância de investir em pesquisadores altamente qualificados como estratégia para o desenvolvimento econômico, tecnológico e social do país.

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