A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, nesta terça-feira (9), o texto que institui o piso salarial nacional para profissionais técnicos, operacionais e administrativos da educação básica pública. A decisão, tomada em caráter conclusivo, representa um avanço significativo para a valorização dos trabalhadores que sustentam o funcionamento diário das escolas públicas brasileiras.
Com a aprovação, a proposta segue agora para o Senado Federal, salvo se houver recurso para apreciação no Plenário da Câmara. A medida atende a uma reivindicação histórica de profissionais que compõem o quadro de apoio escolar e que, até então, não eram contemplados por um piso salarial nacional equivalente ao dos docentes.
Novo piso será de 75% do piso dos professores
O texto aprovado estabelece que os profissionais técnicos, administrativos e operacionais da educação básica pública receberão 75% do piso salarial nacional dos professores da educação básica. Essa proporção foi definida como forma de reconhecer a importância do trabalho desses servidores, sem comprometer a autonomia financeira dos entes federados.
A iniciativa promete impactar diretamente milhares de trabalhadores que atuam na manutenção das escolas, no suporte pedagógico, na gestão administrativa, na alimentação escolar, na limpeza e em outras funções essenciais ao cotidiano das unidades educacionais. Em muitos estados e municípios, esses profissionais recebem salários considerados baixos e frequentemente distantes de padrões mínimos nacionais.
Segundo o substitutivo aprovado, caberá a cada ente federativo — estados, Distrito Federal e municípios — regulamentar os planos de carreira e benefícios adicionais, seguindo suas realidades financeiras e administrativas.
Texto aprovado é substitutivo da Comissão de Educação
A matéria é um substitutivo da Comissão de Educação ao Projeto de Lei 2531/21, que chegou à CCJ após tramitar pelas comissões temáticas. O relator na CCJ, deputado Danilo Forte (União-CE), apresentou parecer favorável ao texto, que foi seguido e aprovado pelos parlamentares.
Para o relator, a proposição não interfere na autonomia dos entes federados, pois não determina estruturas de carreiras, gratificações ou progressões. Ele destacou que o objetivo principal é “garantir um vencimento inicial mínimo a um segmento essencial ao funcionamento das redes de ensino, assegurando condições mais dignas e coerentes com o papel que desempenham”.
Danilo Forte também enfatizou que a proposta contribui para a construção de políticas de valorização que vão além do magistério, abrangendo todo o conjunto de profissionais responsáveis pelo ambiente escolar.
CCJ suprime artigo sobre reajuste anual do piso
Durante a tramitação, a Comissão de Finanças e Tributação (CFT) apresentou uma subemenda que retirou do texto o dispositivo que previa a atualização anual do piso salarial, utilizando o mesmo índice aplicado ao piso dos professores da educação básica.
A supressão foi justificada como forma de garantir maior controle fiscal aos entes federativos, já que a vinculação automática ao piso do magistério poderia gerar impacto financeiro adicional, especialmente em municípios com menor capacidade orçamentária. A CCJ manteve a alteração.
Com isso, o projeto aprovado define somente o valor mínimo inicial, deixando em aberto a forma como futuros reajustes serão definidos. Essa discussão poderá ser retomada durante a análise no Senado, caso parlamentares entendam necessário aperfeiçoar a política salarial para o segmento.
Valorização dos profissionais de apoio escolar em pauta nacional
A aprovação da CCJ marca um momento relevante para as políticas de valorização dos profissionais da educação. Embora grande parte dos debates públicos se concentre nos professores, o funcionamento das escolas depende de um conjunto amplo de trabalhadores, tais como:
- auxiliares administrativos
- secretários escolares
- técnicos de laboratório
- auxiliares de serviços gerais
- merendeiras e cozinheiras
- porteiros e agentes de apoio
- profissionais de manutenção e operação
O trabalho desses profissionais garante a organização, a segurança, a limpeza e a alimentação nas escolas, além de apoiar processos pedagógicos e administrativos que sustentam o ensino.
Entidades representativas da educação há anos defendem a criação de um piso salarial nacional unificado, argumentando que a ausência de parâmetros mínimos contribui para desigualdades salariais entre as redes e desvalorização crônica do setor.
A proposta aprovada pela Câmara sinaliza uma mudança positiva e um avanço na pauta da valorização de todos os profissionais da educação básica.
Impactos do novo piso para estados e municípios
Caso seja aprovado pelo Senado e sancionado, o piso salarial nacional para os profissionais da educação básica exigirá ajustes nos orçamentos dos estados e municípios. No entanto, especialistas afirmam que a medida pode gerar ganhos estruturais importantes, como:
- redução da rotatividade de profissionais, que hoje deixam seus cargos por salários baixos;
- fortalecimento das equipes escolares, contribuindo para ambientes mais organizados;
- aumento da motivação dos servidores, impactando diretamente o atendimento às comunidades escolares;
- padronização mínima nacional, reduzindo disparidades salariais entre regiões;
- profissionalização do setor, com potencial de qualificação dos serviços administrativos e operacionais.
A criação do piso também pode fomentar discussões sobre políticas de formação continuada e melhores condições de trabalho para esses servidores.
Desafios para implementação
Apesar da aprovação na CCJ representar um avanço, a implementação ainda enfrentará desafios. A ausência de regra de reajuste anual pode dificultar a atualização do piso ao longo dos anos, caso não haja articulação entre governo federal e entes federados para garantir correção periódica.
Outro desafio é a capacidade orçamentária de municípios pequenos, que podem ter dificuldades para adequar seus quadros salariais. Nesses casos, entidades municipalistas podem pressionar por apoio financeiro da União, a exemplo do que ocorre em outras políticas educacionais.
Ainda assim, especialistas consideram que a proposta tende a fortalecer a educação básica, ao promover maior equilíbrio e dignidade para todos que atuam no ambiente escolar.
Tramitação continua no Senado
Com a aprovação em caráter conclusivo, o Projeto de Lei 2531/21 segue agora para o Senado Federal. No entanto, caso algum deputado apresente recurso dentro do prazo regimental, a proposta poderá ser enviada ao Plenário da Câmara para nova votação.
No Senado, o texto será analisado pelas comissões e pelo Plenário. Eventuais emendas poderão ser apresentadas e, se aprovadas, o projeto retornará à Câmara dos Deputados.
A expectativa é de que o tema avance, já que a valorização dos profissionais da educação é pauta recorrente na agenda legislativa e conta com apoio de diferentes segmentos educacionais.
Movimento nacional pela valorização da educação básica
A instituição de um piso salarial nacional para profissionais que atuam na base da estrutura escolar representa uma resposta a uma demanda crescente por políticas amplas e inclusivas. Movimentos sociais, sindicatos e especialistas em políticas públicas destacam que a educação de qualidade depende de equipes completas e valorizadas.
Ao reconhecer o papel dos profissionais administrativos, operacionais e técnicos, o Congresso Nacional contribui para o fortalecimento das redes públicas e para o aprimoramento das condições estruturais das escolas.

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