A Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara dos Deputados aprovou, em dezembro, um projeto de lei que estabelece limites claros para o uso da inteligência artificial (IA) na educação brasileira. O PL nº 3003/2025 proíbe que professores sejam substituídos por sistemas automatizados em instituições de ensino públicas e privadas, da educação infantil ao ensino superior.
A proposta reforça que a tecnologia deve atuar como ferramenta de apoio pedagógico, e não como substituta do trabalho docente, preservando o caráter humano do processo educacional. O texto segue agora para análise em outras comissões da Câmara antes de avançar na tramitação legislativa.
O que prevê o projeto aprovado pela comissão
O projeto de lei estabelece que o ensino é uma atividade essencialmente humana e que não pode ser delegado integralmente a sistemas de inteligência artificial, ainda que esses apresentem avanços significativos nos últimos anos.
Uso permitido da inteligência artificial nas escolas
De acordo com o texto aprovado, a IA poderá ser utilizada como instrumento complementar no ambiente educacional. Entre os usos autorizados estão:
- Apoio à pesquisa acadêmica
- Correção automática de atividades objetivas
- Personalização de conteúdos educacionais
- Organização de dados e acompanhamento do desempenho dos estudantes
No entanto, o projeto deixa explícito que a tecnologia não pode assumir o papel de professor, nem substituir profissionais habilitados no exercício da docência.
Atividades que devem permanecer sob responsabilidade humana
O texto também define funções que devem ser exercidas exclusivamente por profissionais da educação com formação adequada. Entre elas estão:
- Planejamento pedagógico
- Avaliação subjetiva dos alunos
- Mediação do processo de aprendizagem
- Orientação educacional e pedagógica
- Acompanhamento emocional e social dos estudantes
Essas atribuições são consideradas centrais para o desenvolvimento integral do aluno e não passíveis de automatização.
Abrangência: da educação infantil à pós-graduação
A proposta tem aplicação ampla. Caso seja aprovada em definitivo, a regra valerá para:
- Educação infantil
- Ensino fundamental
- Ensino médio
- Ensino superior
- Pós-graduação
Além disso, a proibição se aplica tanto à rede pública quanto à rede privada, evitando interpretações que possam permitir a substituição de docentes em determinados segmentos educacionais.
Relator destaca papel insubstituível do professor
O relator do projeto, deputado Julio Cesar Ribeiro (Republicanos-DF), defendeu a aprovação do texto ao destacar que o trabalho docente vai muito além da simples transmissão de informações.
Segundo ele, o professor exerce uma função social, afetiva e pedagógica que não pode ser reproduzida por algoritmos.
“A Inteligência Artificial é um avanço extraordinário, mas na educação ela deve servir ao professor e ao aluno, e não eliminar postos de trabalho ou desumanizar o processo de aprendizagem”, afirmou o parlamentar.
O argumento central do relatório é que a educação envolve relações humanas complexas, sensibilidade pedagógica e capacidade de mediação social, elementos que a tecnologia ainda não consegue substituir.
Debate sobre inteligência artificial e educação no Brasil
A aprovação do projeto ocorre em meio a um debate crescente sobre o uso da inteligência artificial nas escolas. Especialistas reconhecem o potencial da tecnologia para apoiar o ensino, mas alertam para os riscos da substituição de profissionais por soluções automatizadas.
Entidades educacionais e sindicatos de professores têm defendido a regulamentação do uso da IA para evitar precarização do trabalho docente e perda da qualidade pedagógica.
O projeto dialoga com esse debate ao buscar equilíbrio entre inovação tecnológica e valorização dos profissionais da educação.
Próximos passos da tramitação
O PL nº 3003/2025 tramita em caráter conclusivo, o que significa que pode ser aprovado pelas comissões sem necessidade de votação em plenário, caso não haja recurso.
Comissões que ainda irão analisar o texto
- Comissão de Educação
- Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC)
Se aprovado nessas instâncias, o projeto seguirá para o Senado Federal. Para se tornar lei, ainda precisará ser aprovado pelos senadores e sancionado pela Presidência da República.
O que muda se o projeto virar lei
Caso o projeto seja convertido em lei, instituições de ensino não poderão:
- Substituir professores por sistemas de IA
- Criar cursos totalmente ministrados por inteligência artificial
- Utilizar tecnologias automatizadas como responsáveis pelo processo pedagógico
Por outro lado, escolas e universidades continuarão autorizadas a utilizar ferramentas digitais e sistemas inteligentes como apoio ao trabalho docente, desde que respeitados os limites estabelecidos.
Educação, tecnologia e valorização docente
A proposta aprovada pela comissão reforça uma mensagem clara: a inovação tecnológica deve caminhar junto com a valorização dos profissionais da educação. Em um cenário de avanços rápidos da inteligência artificial, o projeto busca preservar o papel central do professor no processo de ensino e aprendizagem.
Ao estabelecer regras claras, o texto contribui para dar segurança jurídica às instituições de ensino, aos educadores e às famílias, além de orientar o uso responsável da tecnologia no ambiente escolar.

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